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Vida escrita, vida vivida

  • Foto do escritor: Alexandre Pilati
    Alexandre Pilati
  • 2 de ago. de 2025
  • 3 min de leitura

Baumgartner, último romance publicado por Paul Auster antes de sua morte em 2024, é uma tacada de mestre. O livro, intenso e leve, importa tanto pela boa história, que entretém e encanta, quanto pela energia de crítica da vida que emana. Esse testamento de Auster prova que ele sabe, como poucos, interligar essas duas dimensões na arquitetura romanesca.


O personagem cujo nome empresta título à obra, Sy Baumgartner, é um professor de filosofia que será lançado pelo narrador à experimentação da famosa frase de Kierkegaard: "A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para a frente."


Encontramos nosso personagem vivenciando o que seria, talvez, a última etapa da "síndrome da pessoa ausente", nove anos depois da perda da esposa Anna. Morta em um terrível e absurdo acidente na praia, Anna ainda permanece determinando a vida do professor, que está envolvido com a produção de dois estudos filosóficos. Um é sobre Kierkegaard, apresentado ao leitor, em linhas gerais, no início da narrativa. O outro, mirando em efeitos satíricos, é intitulado Mistérios ao volante. Este, que conheceremos ao final da narrativa, trata das intervenções do acaso no destino dos indivíduos. Nas duas pontas do romance, portanto, dois estudos filosóficos que ocupam o personagem principal. Além disso, tanto no início quanto no fim da narrativa, Baugartner vive acidentes "bestas", aparentemente sem sentido algum. No meio do romance está o recheio com sabor de excelente literatura. O personagem, por um lado, adensa sua compreensão de si ao compreender o passado pela palavra escrita com que tem contato e, por outro, atrapalha-se diante do futuro.


Da matéria trivial surge o grande sentido da ficção, que põe em movimento a vida escrita e a vida vivida. Então, ganham relevo - e aumentam a estatura da obra - dois elementos de fatura: um mais patente; outro mais sutil. O primeiro consiste na vigência da palavra escrita, apresentada como esteio do romance, que, junto com a memória, torna-se portadora de experiência humana que dá sentido aos destinos, apesar da inexorabilidade do acaso. Relatos, poemas, cartas são recuperados pelo narrador, como sustentáculo da narrativa e como elemento atuante na consciência do protagonista acerca do seu lugar na história. Note-se, por exemplo, como o mundo social penetra na configuração da experiência de vida da personagem a partir da interligação entre memória familiar, memória íntima e escritas lírica e autobiográfica. O elemento de fatura sutil, por sua vez, é a explicitação do ato de escrita do próprio texto em ocorrências muito pontuais, quebrando misteriosamente a perspectiva de narrador onisciente, que parece ser aquela adotada pelo romance desde o início. Auster abandona a transparência romanesca e alfineta o leitor com "efeitos de distanciamento", fazendo o narrador expor a própria obra como produto de ficção. Há dois ou três momentos muito breves no romance em que o narrador se dirige ao leitor, assim como no período final da obra. E só.


Por que produzir esse efeito, chamando apenas pontualmente o leitor de "leitor"? Por que fazer isso olhando diretamente para quem lê, assim evidenciando o artifício da narrativa que parecia realista em sentido tradicional? Esta é a pergunta que me faço há cerca de quinze dias, desde quando terminei de ler Auster. A persistência da pergunta é a eficácia estética do romance. É porque a pergunta permanece que vale a pena ler Baumgartner. É o tipo de mistério que ressalta também na humanidade encravada no belíssimo poema "Léxico", de autoria da personagem Anna, que o protagonista recolhe e busca entender. A busca pela compreensão e a permanência da pergunta é o que há milhares de anos temos chamado também de "literatura" - vida escrita, vida vivida. Eis o poema; não há forma melhor de falar desse romance-testamento de Auster:


LÉXICO


A florzinha era tão pequena

que não tinha nome

por isso chamei minha descoberta de “clarão”

mas pensando duas vezes

renomeei aquela coisinha diminuta

de um vermelho vivo, incandescente

de “Como vai você

sra. Fazpouco e por onde

andou ultimamente?”


Como a coisinha vermelha era uma flor

não me respondeu

e assim nunca saberei

se gostou do nome que lhe dei

ou não. Fui embora.

Ao voltar na manhã seguinte

para ver se a flor havia crescido à noite

a coisinha vermelha tinha desaparecido.


Para onde foi agora sra. Fazpouco

e caso tenha ido para sempre

alguém me faça o favor de dizer

porque aquele diabinho

está rindo para mim do outro lado da rua

com uma coisa vermelha e microscópica

no botão da lapela

que brilha como um fósforo riscado no escuro.



 
 
 

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