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"Pra bater a carteira da morte"

  • Foto do escritor: Alexandre Pilati
    Alexandre Pilati
  • 13 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura


Lançou-se há pouco em Porto Alegre uma coisa nova que se chama Diário dos nossos dias. Essa coisa nova, entretanto, é um objeto obsoleto. Poucas coisas hoje em dia são mais antigas do que um livro de poesia. Mais ainda se o livro se define como um livro de amor. Um livro de poemas de amor espanta porque está fora do esquadro desses nossos dias. E, assim. contra intuitivamente, há uma imensa relevância em se criar um diário do amor hoje. A coisa nova, portanto, sendo coisa antiga, é também é uma "Não-coisa", feito disse Ferreira Gullar num texto de Muitas vozes, a propósito de poemas.


O autor do Diário sabe disso, nota-se bem: "Se não amar você me faz um amante moderno / Deixe-me antigo". Guto Leite é poeta e cancionista, professor e leitor de literatura, pesquisador incansável e irreverente. Sobretudo pela sensibilidade do olhar, tem domínio pleno de uma matéria que não se dobra a seduções de cintura rija. Por isso, o poeta extrai da realidade um recado que se impõe como arrepiante anátema no contemporâneo, porque votado à vida e combatente das mistificações.


O recado do objeto obsoleto do autor, na verdade, são muitos, começando por aqui: "Agimos pequenos miúdos / diante de tamanhos deuses". Aí está uma dialética que anima a poesia do livro: a dialética entre o ínfimo e o enorme. Trata-se de um embate mesmo, sem tempo para conciliação, embora o atrito seja sutil, suave, ao-de-leve. Entretanto, acham-se momentos e formas para a síntese superadora da boa poética. Há vantagem, quase sempre, para os pequenos, à imagem e semelhança do pássaro branco do primeiro poema. Há vantagem, quase sempre, para os tortos, sem romantismo, com privilégio para os dedos reumáticos que nenhuma máquina pode triturar.


É ladeando essa perspectiva dos menores que o poeta (sem didatismo) relembra o leitor que amar, no poema posto no papel, nada mais é que uma estrutura da tradição literária pela qual se metaboliza a relação do eu com o mundo, com sentido de paradigma problemático - que encanta e faz pensar. Nos melhores casos dessa tradição (lá vamos nós pensar em Camões e Petrarca e Dante, porque não?) o amor vige pela capacidade (mentirosa) de dobrar a morte, sabendo, mesmo sem querer, da verdade plena da "indesejada das gentes". Ela vai nos vencer; e diria o poeta "mas não tá certo". É o que afirma um dos poema do Diário, "que não trata de utopias". Não trata porque, sendo malandro, esquece a utopia como tema para buscar a sua forma: a utopia, nos possíveis contornos ínfimos de nossos dias.


Porque o amor não é um sentimento do Guto, mas uma ferramenta de trabalho do poeta, será possível interpretar materialmente a cidade de Manaus como a nuclearidade temática dos Diários. No centro do livro, como um coração na lírica amorosa, está Manaus, Um coração que, todavia, é útero úmido, quente, onde o poeta se exibe. Manaus, nos Diários, é cerne de amor sim, mas pelo contratempo (que sorte o nome da Editora! a vida é coincidência!). O contratempo próprio da poesia. Vejam-se, com cuidado e vagar, a esse respeito os ritmos, os sons, as formas, as métricas, os tópicos e os tropos que abundam na cidade boca-cidade-vagina. Toca e fala poesia e de poesia tudo que mora ali, como os bichos, a chuva, a comida e o suor. Manaus é um universo miridiático de vinte e um poemas, que começa e termina num, simples, ínfimo, chiado manauara. É preciso "reler tudo", pois o que mais chia, um quase silêncio altissonante, é a poesia.


Assim aprendemos que poemas de amor, até mais do que o amor sentimento, são um dia dentro do dia. Um dia que só se descobre porque está escondido no diário. Nesse dia "o mundo vai acabar mas não para nós", porque quando as mãos humanas trabalham e acham a beleza, algo perene nasce.


Já que tratamos de passado, me lembro agora da Elegia XIX de John Donne, que tem trecho entoado por Caetano Veloso no disco Cinema Transcendental (a versão é de Augusto Campos e a música de Péricles Cavalcanti). Essa também é obra de amor, obsoleta, do século XVII, que diz, num certo trecho, sobre a amada: "...e somente a alguns a que tal graça se consente é dado lê-la". A graça humana, pedestre, de um livro de poemas é quase nada - "melodia no limiar das paredes", diz um dos poemas do Diário. Mas, olha, leitor, eu diria que vale a pena. No contratempo do rame-rame dos nossos dias, deveríamos saber aprender os truques da arte "pra bater a carteira da morte". Guto é um que sabe, poeta vilão.


E, lograda a morte, viva nós! porque, perto desse conjunto de poemas, uma boa parte da mais nova poesia contemporânea parece apenas ser ornamental e desfrutável; parece uma peça vintage, com os olhos de vidro daquela Santa, mercadoria. Pois bem, aqui nesse Diário, a alienação sofre de intermitências.


 
 
 

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