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Antologia poética 6: Sob linóleo vermelho

  • Foto do escritor: Alexandre Pilati
    Alexandre Pilati
  • 1 de set. de 2025
  • 9 min de leitura

Em 2022 saiu pela Editora Urutau o meu sexto livro de poemas: Sob linóleo vermelho. A bela edição foi fruto da minha participação na chamada de autores promovida pela editora em 2021. Eu tinha, como sempre, algumas coisas produzidas, guardadas na gaveta. Poemas de que eu gostava bastante; poemas em que ainda trabalhava; poemas que nunca ficaram nem ficarão prontos. Pela oportunidade da chamada, que recebeu mais de 300 títulos, resolvi reunir o que fosse mais passável para ver o que dava. O resultado disso é que, apesar de aceito para a publicação, o livro padece de uma unidade, especialmente se comparado com o livro anterior, Tangente do cobre. Mas é uma coletânea que tem poemas de que eu gosto muito, como o "Esculturas infinitas", por exemplo.



O título Sob linóleo vermelho foi retirado de um belíssimo poema de Louise Glück, poeta que simplesmente adoro. A estrofe era essa:


"It’s autumn in the market—

not wise anymore to buy tomatoes.

They’re beautiful still on the outside,

some perfectly round and red, the rare varieties

misshapen, individual, like human brains covered in red oilcloth"


Quem dera conseguisse escrever uma estrofe assim: limpa, tensa, clara e misteriosa. Às vezes isso acontece no livro. Esses são os momentos que valem a leitura. A maioria deles vai aqui abaixo.





2022

(Sob linóleo vermelho)

 

Fantasmas

 

Já juntamos “n” vezes

os castelos que puseram ao chão.

Incontáveis as pedras

que repusemos nas paredes

esperando por certezas e abrigo.

 

Mas eles insistem

em meter as mãos

sob a nossa túnica inconsútil

para, com apenas três dedos,

controlar por dentro do corpo

os braços e a cabeça.

 

Isso sem falar na nota de rodapé

terrivelmente reiterada, gralha,

que bota o entrecho em contradição

e o argumento virado de pernas pro ar,

por um sempre inexplicável

dá-cá-aquela-palha.

 

Não: os mortos não governam os vivos.

 

Debaixo do céu e em cima do chão,

não se dança fora da lei dos fantasmas.

 

 

Esculturas infinitas

 

Os anjos com os quais mais simpatizamos são queles de quarto ou quinto escalão, feitos de gesso.

 

Capazes de ironia, esfolados e abertos às susceptibilidades do sexo. Acostumados ao fel e adaptados à vingança, letrados na astúcia, cativam num piscar de olhos.

 

Passam, alvos, os anjos de gesso, e sabemos de seu lugar na hierarquia celeste porque sua deambulação produz uma cachoeira de ferros e vidros velhos. Dizem que é o som dos seus pecados.

 

Os anjos de gesso, a um passo da queda, trabalham com o lixo. Trazem rotas as sandálias, que perderam, essas sim, de todo, o ar celestial.

 

Nos balcões, vemo-los a entornar a pinga entre uma mentira e outra. É quando um pouco do pó se desfaz e anuncia, à saída do boteco, mais milímetros perdidos da asa sutil.

 

Como sabem nos olhar nos olhos e questionam autoridades injustificadas, esses anjos provocam também paixões baixas como a ira.

 

Já se relatou mais de um caso de homens e mulheres em fúria que guardaram temporariamente os crachás e avançaram contra eles.

 

Munidos de desespero e de um martelo, desejavam romper o gesso dos anjos; e isso bem no meio do peito, onde supostamente lhes moraria o coração.

 

Já acontece, vez sim, vez não, de o gesso se partir e deixar a plateia entrever, pelas fendas, a alma maciça dos anjos: de estanho, cobre ou pedra-sabão.

 

Isso para escândalo, diga-se, de quem julgava que os anjos de quarto ou quinto escalão, pela leveza da performance, seriam apenas moldes vazios de gesso.

 

O regular, entretanto, é que os amemos mais que a nós mesmos. Especialmente quando esperam na fila, batem a canela na quina ou juntam, nas bermas da estrada, as guimbas.

 

Efetivamente esplendoroso é o seu patético voo de gaivota tonta. Aliás, igual a essas, os anjos de gesso usam o seu canto-grito como uma lança nas manhãs:

 

cravando o amarelo no ambiente onde o céu e o mar buscavam galvanizar em nós o desejo da burra unanimidade do azul.

 

 

Clã

 

Para o Hans Magnus

 

Todos me morreram.

Já faz anos e quando tento recordar

vem-me a extravagante ideia

de que foi meio que tudo ao mesmo tempo.

 

Além desses idos, há uns que moram longe.

Numa terra tão distante

que parece o passado da Terra.

 

Justiça seja feita à valente exceção da tia, ali.

Ela mora defronte; a uma nesga de perigosa distância.

 

Naquele seu jeito de velhinha benigna

eu sei que ela esconde os códigos

capazes de desenlear o caos

do velho jogo sem vencedores.

 

Ela talvez seja a única nesta encarnação

que se lembre de quem eu fui,

especialmente quando me trata como criança.

 

Embora reiteradamente finja

que tem problemas de memória.

 

 

Figadal

 

“risca fósforo

só por brinquedo?

pois acaba queimado!”

 

a mãe, se viva, diria.

 

“mija depois na cama”,

e pesa, no sonho,

o mau cavaleiro.

 

“não foi por falta

de olha-lá...

aponta o isento público

sempre a posteriori.

 

noves fora, todavia,

repousam nas escápulas

os rabiscos de abstrata ousadia

– esta coisa sem cores,

feita de agulhas.

 

e o sol que abrasa

com as tintas de Gauguin

a moleira da humanidade

colhe o ton-sur-ton

de girassol murcho

em nuvem de poeira

do globo ocular de Prometeu,

esmaecido pela hepatite crônica.

 

mas o herói, como nós,

dá ao luxo e se compraz

ao ver seu reflexo

– estátua possível –

nas ferraduras do castigo,

que, renitente, chega de galope.

 

 

Saudade

 

A vida tem

umas asas

de mármore;

e o chão

é um perigo

mais próximo.

 

 

Imortalidade

 

Esfalfa.

Pesa.

É um fardão.

 

 

Literatura

 

Uma tarde quente de verão.

 

Os amantes se olham.

Se escolhem, intimam-se.

Investem-se. Derramam-se.

 

Podem decidir visitar

o parque de diversões

o zoo e suas alamedas.

 

A roda gigante

ou o carrossel,

a jaula dos leões.

 

Podem decidir

um cinema, um filme

de França ou Hollywood.

 

Podem decidir

um útero de árvore

a sombra a brisa a ilusão.

 

Ou não esperar pela noite:

 

querer o quarto

onde se fechem e após

uma garrafa de cerveja

conceber o amor ou as estrelas

e quaisquer outras fórmulas

de existência provisória.

 

Essa cálida luz

de prece e cadafalso

sob linóleo vermelho.

 

Essa luz que assa

os corpos atados,

atmosfera de inteligência e ação.

 

Essa luz que atravessa

em lanças a janela

que envolve a sua luta

e dissipa a certeza do fim.

 

Essa luz bem-vinda

entre tantas possibilidades

que não sossega nem depois

do trabalho dos corpos.

Essa luz eleita.

 

Essa luz é a literatura.

 

 

Cancelamento

 

o trator passa

a cancela fecha

 

aí vem o grilo

pula pula  pula e   pluma

 

depois vem seu grito

verde sobre a cancela

 

– lá na roça a gente

diz esperança

 

 

As crianças

 

tudo é permitido

em um poema

que nunca será lido

 

ouve-se o ranger do sol

arrastando-se além do maciço

e entre gerações a queda

da cortina de chumbo branco

 

o chumbo branco à prova de raios-X

 

no entanto somos capazes

de amar as crianças

e a cor de cenoura ou cereja

que trazem todas no sorriso

 

impassível uma lâmina

dividirá o ar

a bem da dialética

 

elas as crianças carpirão a alameda

por entre a fumaça os blocos duros

e as touceiras da escravidão

 

não posso dizer quando

não nesse poema sem leitores

 

mas te garanto

pode respirar de novo

agora querida

onde que que você esteja

 

você amava as crianças

nos anos 1970

e elas estão de novo por aí

estão comigo também

eu que já fui uma delas

 

as crianças

estão no mundo

como a voz de Bob Dylan

as asas das araras e o quinteto

para clarineta de Mozart

 

embora ninguém

possa ler hoje este poema

 

(eis o que chamamos

neste belo e alienado dia

de boa notícia!)

 

elas as crianças vivem

a atmosfera até o fim]

até o tutano

de seus ossos de leite

 

sim elas sabem

te garanto

 

elas as crianças

abrem de leve

ao ressonar

suas pálpebras de lua

 

como quando a fome claudica

à prece mecânica

dos alimentos

como o mel derrama

o gozo das abelhas

 

o zumbido da vida

está no canto delas

que habita esta página

 

supostamente invisível para nós

 

 

As nuvens

 

Em verdade, é desconcertante para

os homens o

trabalho das nuvens

 

Ferreira Gullar

 

me empreste suas mãos

para tocar esta imensa pedra

 

quero apurar o peso do silêncio

que mora no frio rígido deste bloco

e resgatar de sua indiferença

o piano que vive ali em apneia

 

ninguém irá tocá-lo

um piano composto de rocha

é eternamente mudo

 

me empreste suas mãos

será necessário recobrir

com o látex do tempo

a cauda marmórea

deste piano calado

extraído da pedra

 

é assim que nós estaremos

inscritos ali inteiramente

como se fazia no tempo antigo

 

vamos tratá-lo agora como pastores

de lebres lentas e envelhecidas

vamos contemplá-lo como faríamos

com um elefante

nobre quieto pesado de tempo

rei na lama ou na relva

sobre tudo o que há

 

este piano tirado da pedra mora no ar

deitemo-nos sem desespero no chão

 

me empreste suas mãos

vamos tocar o piano juntos

não simplesmente à espera de sons

mas para que ele esteja certo

em seu coração rochoso

de que alguém o ama

e aceita que ele voe

segundo o roteiro das nuvens

fortes e silentes

 

entretanto falantes

são as nuvens

porque preenchidas

pelas vozes dos mortos

 

me empreste suas mãos

faz assim uma concha

ouça

e olhe o azul

você escutará

o nosso piano no céu

 

 

E-mail sem assunto ao Armando Freitas Filho

 

eu vivi tanto tempo

com seus textos

diante dos olhos

e debaixo dos braços

que considero irreal

o e-mail em que você diz:

 

“obrigado pelo livro

bom e necessário"

 

custo a crer

sorrio

não quero dormir

nem nunca morrer

 

(você um passarinho

saltitando curioso

de surpresa na janela

que separa meu poema

da rua cheia de vida)

 

pare por aí: não leia

não vale o tempo

a pena

a paz

livros são testamentos

as praças têm luz de crianças

 

e a meu ver

a situação é esdrúxula

e muito bonita

o suficiente

 

é como se Felice Bauer

telefonasse para K.

e dissesse: “afinal, então,

qual é a sua, orelhudo?”

 

ato contínuo

passo a mão

nas laterais da cabeça

e constato pela enésima vez

a compleição mais que modesta

de minhas orelhas domesticadas.

 

 

Uma caligrafia

 

I

Atualmente Galdino Jesus dos Santos

é uma escultura.

Uma forma que não tem morte

mas que pode ser destruída

a despeito da arte de Siron Franco.

Essa forma acolhe hoje

o carvão do coração de

Galdino Pataxó Hã-hã-hãe.

 

Galdino todavia

já foi homem

já foi indígena

já foi poema

e essa era a sua condição

– sujeito da vida –

quando lhe atearam fogo

em 20 de abril de 1997

em Brasília cidade fundada

há mais de 500 anos

por Pedro Álvares Cabaral.

 

Cinco jovens bandeirantes

residentes no Plano Piloto

(não deveríamos esquecer):

acharam que Galdino não era indígena

acharam que Galdino não era homem

acharam que Galdino era um mendigo.

 

Naquela etapa das bandeiras

a gloriosa história do subdesenvolvimento

admitia que matar mendigos

com álcool e fósforo

seria perfeita mente aceitável

até porque bandeiras muitas vezes são,

diziam os assassinos, “brincadeiras:

frutos do patamar atual da civilização”.

 

II

Manuel de Borga Gato, quando vivo,

tinha aparência de homem.

Por exemplo: respirava,

sentia frio e esporrava.

E finou-se como juiz ordinário da vila de Sabará.

 

Bandeirantes caçaram,

Traficaram, violentaram, mataram, escravizaram

pessoas negras e indígenas como Galdino Paraxó.

Mas Borba Gato não estava mais vivo

quando no entardecer de 24 de julho de 2021

atearam fogo em sua estátua

numa tarde paulista

que talvez fique esquecida

como a Ilha de Goré

ou as lindas retinas

das meninas do Suriname.

 

III

Há gente que não parece viva.

Há quem morra pela mão de coisas vivas

mais parecidas com estátuas horrendas.

Há quem seja, ainda, morto por bandeirantes

Quando a riqueza assobia

na brisa que o Brasil beija e balança.

 

Essa gente, estátua, bandeirante,

Está por aí, rangendo

mecanismos de morte.

 

Essas estátuas estão nas ruas

de São Paulo ou em Richmond, na Virgínia.

Outras sentam-se à cabeceira da mesa,

Oram em templos e apostam no mercado financeiro.

Nos palácios de Brasília, arrotam.

 

Estátuas nunca são de um:

são de muitos e querem se de mais.

 

E não deveríamos nos esquecer

de que o fogo foi feito para queimar

estátuas e não gente.

 

O fogo: uma caligrafia na contracorrente.

Estejam as estátuas vivas ou mortas.

 

Rejuvenesça

 

Cela s’est passé. Je sais aujourd’hui saluer la Beauté.

Jean-Arthur Rimbaud

 

A cadeira de leitura dá para uma janela.

A janela dá para o lado mais quente da tarde.

O que é bom, pois fica-se a salvo do sono.

 

Os olhos às vezes precisam descansar.

A mente, respirar. É preciso erguer o corpo

do lodo em que as letras vivem, tão longe da vida.

 

Quase tão longe quanto eu, essa cadeira, essa janela.

 

Sorte nossa que há essa mangueira que dá mangas grandes.

Sorte que há uma bulha do outro lado da janela, distante,

à parte, de mim e de você, e quase nos limites da tarde.

 

Não há por que chorar pitangas;

pelo leite derramado também não.

Não faz muito, sorríamos.

 

Sorte que as mangas grandes atraem as maritacas de vésper.

Em sua sinfonia de pau rachado, a razão encontra algum alento.

A fome e a canção no ritmo de algo antigo: sorte nossa.

 

Certas coisas – a poesia, o órgão do sexo,

os instintos e alguns lugares

onde de repente estamos

ou em que fomos felizes –

encontram a ruína devagar.

E, com sorte, feito a juventude,

desaparecem sem tragédia.

 

(Fim de 2022)

 
 
 

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