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Antologia poética 7: Terra calada e outros poemas de distâncias

  • Foto do escritor: Alexandre Pilati
    Alexandre Pilati
  • 1 de out. de 2025
  • 5 min de leitura

A última estação da caminhada pelos meus livros de poemas é a Terra calada. Este livro, publicado em 2023, é dividido em duas partes. Uma delas, que intitulei "Outros poemas de distâncias", reúne textos que abordam temas como o exílio, a solidão, a estrangeiridade, as separações etc. A primeira parte, intitulada "Terra calada" é um conjunto de exercícios poéticos feitos a partir de um caderno de escritos deixados por minha mãe, que guardei durante muito tempo após a sua morte como uma espécie de biblioteca de versos. A partir deles, procurei poetizar um pouco da sua história íntima, especialmente buscando extrair o que há de belo e humano nos momentos de solidão e aflição pelos quais, afinal, todos passamos.



2023

(Terra calada e outros poemas de distâncias)

 

Labirinto

 

eu peguei a lua com a mão

e a trouxe perto o mais que pude

de meus seios de aconchego torto

 

de seu coração de colombina

era possível ouvir uma nota breve

como aquelas que abrem uma série prolixa de sonatas

uma pequena nota de música em que a lua tímida

suspirando dizia o que era o seu coração

feito da seiva bruta dos vegetais macios

que enchem o ambiente da mais clara juventude

 

eu achava que era assim

 

mas a lua me disse que não era nada disso

que ela era só uma coisa cinza longínqua sem luz

que eu a deixasse em paz de uma vez

para que continuasse a andar sem chegar a lugar algum

a não ser aquele antigo endereço

onde toda música é

silêncio desejo mistério

na imensa estufa calada do sistema solar

 

a lua queria era me imitar:

ficar só em sua jaula

em seu labirinto

 

 

O aparecimento do pirilampo

 

A pergunta sobre

se amanhã haverá trabalho

e como trabalharemos.

 

Sabê-la é como aguardar

que a tarde laranja e metano

não se converta no mundo obscuro.

 

O esforço livre de criar uma moldura

lábil e te ver pensar o destino

numa cidade arruinada.

 

Tuas mãos abertas

na noite fria.

 

Eu procurando no mundo

a parte mais vizinha de ti.

 

Meu fôlego que some

quando vejo

de dentro de tuas mãos

decolar um pirilampo.

 

– Que trabalho há?

Perguntamos juntos. – É só.

“É o amor”: alguém que passa responde

 

enquanto viaja avante

doce e sagrada

a mínima luz titubeante.

 

 

O anfitrião anfíbio

 

O seu quase silencia descomplicado

apenas disse:

“mecê chegue,

se abanque nesse meu colo

de homem”.

 

E os meus dribles da berlinda

se desencantaram

cismaram

quase pifaram.

 

(Quero estar n’outra estância da lua,

mas a sua constelação é que me chama:

o ímã de carne do anfitrião anfíbio)

 

Foi aí que a mãe de noite

desceu para o corpo

desde o sótão da mata

como um mandamento ágrafo

que por fim domou toda intermitência

das águas que carrego.

 

“Dança?”

você me disse

já na margem

com a mão estendida

num meio banho de abismo.

(Eu tenho sorte e agora temo as águas

que passeiam meus joelhos)

 

Você fez com a mão:

“O fundo

o mundo

molhado do amor?”

 

Eu tinha, porém, boca:

“Não. O sertão é o mundo...”

e marchei ao revés

de mãos caídas.

 

Estava de novo

no olho da rua.

Incandescente

seca e livre.

 

Só.

 

Dentro de minhas retinas

– espelhos do gris da lua –

era apenas

o salto rosáceo do boto.

 

 

Terra calada

 

Porque não sabia

como te encontrar

 

alimentei outra vez

a cidade com meus pés.

 

Deslizei vias e demorei

descosendo a espera.

 

Ficou só o núcleo:

a busca, muda palavra,

 

de que surge uma cerâmica.

Poesia em forma de rosa.

 

Uma gota minha,

pequena fruta de luz.

 

Homenagem ao longe

do teu perfume.

 

 

“A estrangeira”

 

Às vezes

quando me tratam

dessa maneira

 

em ocasiões solenes

 

tenho a impressão

de ter ouvido

a expressão

 

“a paciente”.

 

 

País

 

Uma cidade árida no mar alto.

O teto é baixo

e o poço profundo.

 

No centro da praça

tão distante da voz

está uma cadeira:

o trono do inaceitável.

 

Frio poeira mordaça.

Maré violenta por todos os lados.

O que esperamos

nas cenas seguintes?

 

A nau que não afunda

nem navega.

As sereias da seca

Que presenteiam flores

Trazidas do sol do inferno.

 

O inaceitável se senta

com o peso de uma estátua.

As bordas da praça emborcam.

 

Aí nessa fronteira da fossa

é onde assistimos.

 

Nós: belos e tristes.

Antropofagicamente afogados.

 

 

Luzes da ribalta

 

muda

a plateia

o picadeiro a lona

muda o mágico

a roupa a luz

muda a ajudante

a coreografia

mudam seus olhos

de elke maravilha

a música

será sempre outra

muda

 

só o que não muda

o que permanece

sempre só

e o mesmo

repetindo a si mesmo

nas peles mais diversas

como num sonho

 

é o coelho parido pela cartola

o coelho com seu focinho

de fâmulo doce

 

em sua testa

pequena de roedor

ele segue a pensar

que é a primeira vez

e que nasceu para os aplausos

 

a grande sacanagem

(aquela que nem sempre percebe

o coração do espectador)

é que a cena ocorre nas matinês

 

e logo depois da exibição do globo da morte

 

 

A beleza da tua recusa

 

constrói o teu retrato

de raro sal de ferro

Olga Savary

 

Na época em que você era poeta

sorria

mas não olhava de frente nas fotos.

 

Súbito o fotógrafo

infartava. E o público

se tornava desejo

do objeto de desejo.

 

O mundo correto

ficava de ponta cabeça.

O circo que era doce

acabava-se.

 

Por isso te espetaram,

flor povo,

em um banco

sobre as pedras

portuguesas da orla

que cheira a Inferno e Paraíso?

 

Por que ninguém entendia

a necessidade a virtude

a beleza da tua recusa?

 

 

A esperança

 

Contra intuitivamente

a esperança

esperança

é uma menina azul

apontando uma pistola

com olhos que ardem.

 

Quem tem medo foge

se abaixa grita morre

do coração.

 

De repente

ela dá uma cambalhota

não atira

e guarda a pistola.

 

Apesar do ridículo

da cena (a turba

em vermelha correria)

ela não sorri.

 

A mão passeia

o coldre

e o indicador sente

por osmose

outra vez

o gelo do gatilho.

 

 

Água de meus países

 

Tem um gosto de fumaça

a água

a jusante do garimpo.

 

Vocês precisam também

aprender a palavra pólvora

para bebê-la

por dentro

como fizeram algumas

de nossas antepassadas.

 

Contam que anda

sobre o espelho transparente

do paranã-mirim

o Curumim Luminoso,

diz-que “mercurial”.

 

Depois da cachaça

Tião Dente-de-Ouro foi tentar socorrer

a visagem

e aquela noite

acabou só com as botas

pra fora do bocão

 

da sucurijuba.

 

 

Previsão do tempo

 

O oráculo

entediado cachimba

e silencia.

 

A sala de espera

se amplia dobra

a outra esquina.

 

A ideia futura

como um rato

adere ao bueiro.

 

 

A risada de Andy Warhol

 

perchè il senso

è nel cercarei l senso

non nell’aver trovato

Walter Cremonte

 

A poesia nunca é

como alimentar-se.

 

Café da manhã

almoço e janta.

Cada dia uma coisa.

 

A poesia é sempre

escrever o mesmo poema.

Todas as vezes que isso seja possível.

 

Sem parar.

Escrever o mesmo poema

Indefinidamente.

 

Até que o poema se torne um ícone

(um negócio ou produto!)

Um ícone!

 

Mas isso nunca acontece.

Por mais que o poeta queira

Ou que o acaso deixe.

Isso não acontece nunca.

 

E é porque isso não acontece

que às vezes acontece a poesia.

 

(FIM de 2023)

 
 
 

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