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A luta de Louis

  • Foto do escritor: Alexandre Pilati
    Alexandre Pilati
  • 23 de ago. de 2025
  • 3 min de leitura

A autoficção com ambição sociológica encontra em Édouard Louis um representante talentoso. Em Lutas e metamorfoses de uma mulher, o jovem autor francês evidencia muito claramente as justas razões pelas quais é considerado um dos expoentes da narrativa francesa contemporânea, o que não é pouca coisa considerando-se toda a tradição literária do país.


Nesse gênero, sucesso de vendas no mundo todo, encontramos ao seu lado, mais ou menos incisivamente sociológicas, as narrativas de Annie Ernoux e Didier Eribon. Comparada à obra desses dois autores, chama a atenção do leitor, na prática literária de Louis, a sua escolha pela forma breve.

Lutas e metamorfoses de uma mulher é uma narrativa curta em que acompanhamos recortes da trajetória de vida da mãe do autor, entremeados por comentários auto-reflexivos do filho que avalia o relacionamento dos dois. Assim, almeja-se um retrato de tantas mulheres da classe trabalhadora francesa que veem a vida se esvair submetidas aos caprichos de quem tem direito ao mando no mundo patriarcal. Há, na construção do livro, que finda com uma nota esperançosa relativamente às possibilidades de rompimento com o jugo masculino, uma tendência a uma estética do fragmento, do provisório, que empresta ares de maior "sinceridade" ou "legitimidade" ao depoimento de cariz sociológico de Louis. Vê-se, então, a narrativa ser construída através de um aparato estético e discursivo de reiteração da legitimidade de quem relata.


O papel do narrador de ficção, assim, atrofia-se, como talvez seja obrigatório no gênero escolhido pelo autor francês. Nesse enquadramento geral do gênero, a escolha pela concisão, insere um elemento que merece atenção crítica. Ele nos leva à discussão sobre os efeitos estéticos do que é sumário em termos de narrativa. Não pelo simples fato de ser curta uma narrativa é boa ou ruim. Mas o livro de Édouard Louis abre espaço para uma interessante reflexão acerca da distinção entre condensação e brevidade. Na brevidade, escolhe-se pela ordenação de fragmentos. Na condensação, opta-se pela organicidade das partes que apontam para o todo. Um puxa para o singular, outro para o universal. A dialética entre singular e universal, que lastreia a construção de uma particularidade estética, parece ser fundamental para a qualidade literária dos textos que pretendem ir além das contingências que os geraram ou que marcam a sua recepção.


O sistema que garante essa dialética, em Lutas e metamorfoses de uma mulher, ainda é frágil, a despeito do talento e da luta de Louis. A escolha prioritária do narrador faz o texto se configurar por meio de um ritmo acentuado de deslocamentos da ação para a reflexão a respeito dos fatos da memória evocada. Dada ligeireza da narrativa e a forma fragmentária, a avaliação que integra a reflexão do narrador aparece, muitas vezes, como uma mediação pesada demais para um texto tão curto. Não seria, por si só, um problema que o narrador contasse os fatos e ao mesmo tempo os avaliasse, mas dado o princípio autoficcional que guia a concepção da obra, o pendor avaliativo resvala muitas vezes para o "pedagógico", que resulta em perda de força problematizadora dos fatos em relação à sociedade a que eles se referem. Assim, tem-se a impressão de que as reflexões de viés pedagógico do narrador geram uma "instrumentalização da leitura", como se o romance viesse com seu próprio manual de leitura. Sai-se de Lutas e metamorfoses de uma mulher com a impressão de que se leu uma narrativa que já vem com guia, o que, pode cercear as alternativas de compreensão e de estabelecimento de relação entre fatos e perspectivas subjetivas, sejam eles considerados internamente ou externamente ao texto. Esse conjunto de fatores posto em movimento na obra, ata, deleteriamente, a sua forma ao singular, restringindo suas possibilidades de universalização e de contato com a totalidade.


Mas, como Louis é um autor de talento, é perceptível um incômodo, talvez com caráter de sintoma, especialmente quando ao autor reitera que deseja "escrever contra a literatura". Em alguma medida ele consegue o seu intento e deixa entrevisto o custo da luta necessária para esta acrobacia que encontra-se, hoje em dia, nas graças do mercado literário. LOUIS, Édouard. Lutas e metamorfoses de uma mulher. São Paulo: Todavia, 2023.

 
 
 

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