Pitacos sobre a poética do Chico
- Alexandre Pilati

- 16 de jul. de 2025
- 4 min de leitura

Apareceu em Brasília a ANTA - Antifesta literária da Asa Norte. Liderada por Renato Fino, a ANTA reuniu poetas, professores, críticos, jornalista e leitores em rodas de bate-papo variadas entre os dias 11 e 13 de julho de 2025, na pracinha da 410 norte, sob árvores bem brasilienses. O mote do evento poderia ser uma expressão do seu principal organizador, registrada em matéria do Correio Braziliense que saudava o evento: "literatura não é burro de carga" (cf,: https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2025/07/7195230-asa-norte-literaria-festival-reune-autores-da-cidade.html).
Que venham muitas outras edições: pela ocupação do espaço público, pela leitura da literatura na praça, pela conversa livre de convenções e pela difusão da nossa literatura. No ano que vem, e assim por diante, viceje a estação da ANTA.
Tive a alegria e a honra de estar na mesa em homenagem ao poeta Chico Alvim, na fria manhã do domingo, ao lado de Severino Francisco, Francisco Kaq e Maria Lucia Verdi. Lemos poemas do Chico e conversamos sobre a força e a beleza de sua obra. A seguir, registro o rascunho dos pitacos que dei sobre a poética do nosso querido comparsa de versos.
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O bom dito de Cacaso, segundo o qual Francisco Alvim é o "poeta dos outros", permanece válido e se amplifica com o passar do tempo. Porque é mesmo muito nosso esse poeta a quem chamamos de Chico, pois o sentimos humanamente próximo: estranho e familiar, como um parente. Um Francisco que nos orgulha e vexa; e que orgulha porque vexa.
Quem atentar para a experiência literária brasileira irá reconhecer facilmente a linhagem e a altura de nosso Chico. Sua obra é com justeza bem localizada no grupo de Machado de Assis, Oswald de Andrade e Dalton Trevisan. De Machado, toma a tinta da galhofa, a pena da melancolia e o olhar crítico transversal sobre as classes em luta na configuração difícil na experiência nacional. O poema pílula oswaldiano é uma, não a única, forma de enxergar o mal estar de uma poesia que pede o comprometimento político e fere a autocomplacência ética do leitor, que, pelo golpe rápido, se vê tantas vezes perdido na confusão cotidiana. E do Vampiro de Curitiba, o laconismo, os recortes de narrativas, a exposição a seco do nervo perverso da vida. Sobre tudo isso paira, a meu ver, uma sombra branca, dolorida, sobre pedras de Minas, chamada Carlos Drummond de Andrade. Por iss, Chico não é só o nosso confrade, camarada, de balcão de bar ou de papo de elevador. É o Francisco, erudito, que pergunta, com a garganta seca: "qual o real da poesia?"
Foi Zuca Sardan, amigo de tanto tempo, quem melhor definiu nosso poeta, usando a imagem da cara de "Pierrot lunar com meia sombra solar". Chico e Francisco, duas faces de Alvim - a "Face Preta da Lua Nova" variando flutuante com a "Face Amarela", a da torcida. Essa dialética da poesia, que é talvez epítome de um longo rio literário do ocidente, desabrocha de forma indiscutível nos livros Elefante e O metro nenhum. Quer ver? / escuta":
Na face "Preta da Lua Nova", onde se acha uma lírica não telegráfica, mas nem por isso menos afásica, a meu ver o nervo está no fato de que o poeta problematiza a dura lida com as palavras. Em muitos desses textos exibe sob a luz negra da dificuldade os complexos mecanismos de uma luta enfrentada pelo poeta em sua obstinada busca por uma linguagem que seja capaz de expor as contradições da realidade em nível exigente. É exemplo disso o poema "Sonoro":
Voz que dança
na luz que brilha nessa linha
branca
do horizonte
(Que horizonte?
Cego?)
Fora do mar
Fora da terra
Fora
Na luz
cósmico-cosmogônica (escuríssima!)
Dança
Linha
linha do horizonte
vertical
contígua à coluna
vertebral cervical
no espaço em arco
(um céu sem alvo!)
ar que respira outro
Ar
areia que respire outro
pó,
de astros de
estrelas
Luz, luz
que cresce
no espaço que se abre
da aurora
Na "Face amarela", a da galera, o seu "minimalismo enorme", como diria o seu melhor leitor, Roberto Schwarz, torna-se luz clara, bonita, mas sufocante. Seu farol atravessa as classes sociais, evidenciando contradições que só podem ser realmente escarafunchadas se se tornam problemas da linguagem. A poesia assume, nos mínimos detalhes, a dor paquidérmica do elefantão chamado Brasil. Daí ao sistema mundo é um passo porque tudo é projetado a uma totalidade ausente, que cabe ao leitor completar, até consigo mesmo, se for o caso. Vejamos e escutemos "Histórias de Neto"
São muito chatas
Mas esta vale a pena
A babá
mocinha treze catorze anos
resistiu quanto pode
confessou tuo
Só que o tudo era outra coisa
muito pouco
quase nada
cinco reais um lençol um quilo de arroz
o Cartier, negou
Ele três aninhos só ouvindo
e
de repente
(nunca vi criança tão inteligente)
Mas que perigo
podiam ter roubado
a minha chupeta
Está provado: numa e noutra face do nosso vate há espaço para a dinâmica humana, em seus movimentos de pura contradição, elevadas a leis de uma poética exigente, complexa, pungente. Como fizeram os grandes realistas do século XIX, que tanto fizeram a cabeça do Francisco leitor de literatura.
Mas esta de Alvim é uma literatura sem nenhum tipo de idealismo, sem ilusão de ocasião, sem misticismo algum. Por isso, talvez, a tal da escrita para ele é dureza. Em entrevista recente o poeta disse que tem "horror a escrever". Nenhuma insígnia é tão valiosa quanto esta para distinguir um grande poeta nos dias de hoje.
Francisco Alvim é um clássico brasileiro porque sua literatura é verdadeira, isto é: fala que se autoquestiona; investigação rigorosa da vida; crítica realista do vivido. Poesia que se arma nas leis da beleza para colocá-las na corda bamba. "E viva nós!", como dizia Cacaso.
Alexandre Pilati (16/07/2025)




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