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Error, de Francisco Kaq

  • Foto do escritor: Alexandre Pilati
    Alexandre Pilati
  • 26 de jul. de 2025
  • 2 min de leitura

Coisa rara é o poeta saber a medida exata da sua poesia. Pois esse é o caso de Francisco Kaq. Em seu Error, nada fica fora do lugar; nada sobra ou falta. O leitor se depara com um universo que se distingue por sua organicidade, que parece espontânea, mas que é certamente fruto de muito trabalho.


Essa é a primeira impressão que fica do Error, livro que já tem 10 anos, mas que não envelheceu. Tudo está em seu lugar e o poeta domina as medidas necessárias para metabolizar em poesia os aspectos da realidade a que seu olhar sensível dedica atenção.


O livro é composto por três poemas longos, diferentes entre si, mas ligados pela inteligência sensível do poeta, que deixa a digital volátil do seu artesanato gravada em cada um deles.


O primeiro, que dá título ao volume, "Error" (viagem de rumo ou de duração indeterminados/

erro, culpa), encanta pela forma como a tradição atravessada por concretismo, neo-concretismo, poema-processo é submetida a um novo tempero, com ingredientes, por assim dizer, descoisificantes. No minimalismo que rege a escolha das palavras, Kaq injeta narratividade, subjetivismo, movimento, opinião. O périplo trivial do personagem (se assim podemos falar) não se resume a móbiles estáticos - ao contrário. Somos levados a pensar num "lance de dados" de arrabalde, um Mallarmé que contempla o lixo, encanta e faz pensar.


"Sublevação", o segundo texto. é poesia política, mas primeiro é poesia. Em sua composição, ressalta-se a capacidade de os fragmentos manterem certa autonomia e ao mesmo tempo uma dependência irrestrita, o que forma um conjunto ambíguo. Mas uma vez, o narrativo e o lírico incandeiam o bom manejo da chamada palavra-coisa. A busca pela musa, guerrilheira, utopia ou puro enigma é o que move o poeta e insta o leitor.


Por fim, o terceiro poema, "Samba" conduz a premissa de palavra autônoma ao movimento, através do uso competente da técnica da colagem. O poeta decalca versos de sambas de nossa melhor tradição, explicitamente Noel e Wilson Baptista, e implicitamente tantos outros. Assim, nesse terceiro poema, há uma pororoca boa de acompanhar: há samba pra dar e vender no processo poético de matriz concreta, o que deixa ver a força poética de um verdadeiro encontro de correntes.


Em síntese: Kaq nos leva em três viagens em que a errância não erra. Não há regra para a boa poesia. Mas, como dito no início, há medida. Achá-la é o segredo. Aí o que ocorre é poesia forte, que dá o que sambar; dá o que errar. E a conversa continua...


KAQ, Francisco. Error. Brasília, DF: Siglaviva, 2015.

 
 
 

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