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Da notícia ao poema

  • Foto do escritor: Alexandre Pilati
    Alexandre Pilati
  • 9 de ago. de 2025
  • 3 min de leitura

Marcos David Alconchel me encaminhou gentilmente a sua plaquete publicada pela Galileu Edições intitulada "Morte do leiteiro": do noticiário ao poema. Trata-se de um breve, sensível e inteligente estudo sobre o belíssimo poema de Carlos Drummond de Andrade.



"Morte do leiteiro" é apresentado ao leitores pela primeira vez em 1º de outubro de 1944 no Correio da Manhã. Depois é recolhido no livro A rosa do povo, de 1945, o maior monumento de poesia política do nosso tempo. O poema narrativo conta a história de uma tragédia urbana que, como comprova o estudo de Alconchel, baseia-se em um caso ocorrido em 31 de agosto de 1944 no Rio de Janeiro. Ao entrar para entregar leite na casa dos fundos de uma residência de subúrbio, um jovem trabalhador é baleado, tendo sido confundido com um bandido por seu assassino. E essa é a história que o poema trabalha.


Descobrir e recolher nos jornais da época a história do leiteiro Carlos Teixeira de Sousa e de seu assassino, o intendente da Marinha aposentado Antonio Marques Rodrigues, está entre os principais méritos do estudo crítico. Mas eles não param por aí.


O leitor da plaquete acompanhará um bem organizado estudo que discute em linhas gerais a ideia de poesia de circunstância e a sua abordagem por Drummond. A partir daí se chega a uma apresentação do motivo baudelairiano da poesia moderna que dialoga com os fatos do presente a partir do jornal. Além disso, o autor aborda o papel do jornal da na poesia do autor de A rosa do povo e, após uma breve discussão dobre o gênero "romance" passa a uma leitura atenta dos "cinco atos" do poema narrativo drummondiano.


Dois pontos da análise de Alconchel permanecem inquietando o leitor após a leitura. Um deles é o modo como o poema parece tratar ambiguamente a fala do personagem que mata o leiteiro. As reportagens escolhidas parecem dar subsídios à interpretação dessa fala como uma oportuna defesa de si e da propriedade, que afinal termina salvaguardada pela imolação do leiteiro inocente. Drummond, a meu ver, estaria sutilmente criticando a perspectiva pequeno-burguesa do personagem com o uso de uma ironia muito fina. O outro ponto interessante e extremamente atual é a imagem final do poema, que alude à aurora por meio uma uma fusão kitsch de leite e sangue do jovem morto. Aqui parece haver uma crítica à própria literatura e aos limites que ela mesma tem em falar do sofrimento dos trabalhadores, correndo sempre o risco de incorrer na coisificação. São assuntos que têm vigência atual, graças à força do poema e à inteligente análise do crítico.

Alconchel, assim, não há dúvida, está em linha com o melhor de nossa crítica literária. Posiciona-se a sério diante do texto literário e toma suas contradições como o ponto de partida inescapável para a pesquisa e para a reflexão. O caráter acessível de "Morte do leiteiro": do noticiário ao poema prova que a critica literária rigorosa não precisa obrigatoriamente restringir-se ao meio acadêmico. Ela pode se abrir a um público mais amplo, com o qual termina por colaborar ajudando os leitores a compreender o funcionamento estético dos textos e a perceber como os seus componentes formam um todo orgânico e dialético com a realidade. Já o poema de Drummond, como atesta o estudo de Alconchel, não perdeu nem o vigor poético nem o poder de crítica da vida.


ALCONCHEL, Marcos David. "Morte do leiteiro": do noticiário ao poema. Londrina: Galileu Edições, 2024.

 
 
 

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