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As Imperfeições

  • Foto do escritor: Alexandre Pilati
    Alexandre Pilati
  • 16 de ago. de 2025
  • 3 min de leitura

Vicenzo Latronico propõe que seu breve romance As perfeições (Todavia, 2025) seja uma homenagem ao livro As coisas de Goerges Perec, começando pela epígrafe: "Aí estava a verdadeira vida, a vida que queriam conhecer, que queriam levar."


Essa frase orienta a forma do texto e lança o romance numa zona de risco. Produzir um livro referindo-se a Perec em 2025 pode fazer com que a obra se transforme ou em mero pastiche anódino ou em uma tese sobre Perec. Isso porque o autor francês tem um estilo muito peculiar e extremamente vinculado ao tempo em que foi desenvolvido, uma etapa do capitalismo bem diferente dessa a que se refere As perfeições. Salvo melhor juízo, Latronico escapa do pastiche e da tese, deixando, na busca por uma relativa autonomia, pistas do que poderia ser uma contribuição sua àquela literatura configurada em As coisas.


O romance de Latronico mobiliza algumas tendências fortes da estética de Perec, mas não as anestesia na cópia anódina do estilo, nem as torna objetos retóricos de um jogo de armar erudito. Em sintonia com a literatura do nosso tempo, há na obra um anseio de apresentação contextual e análise social. Com isso, o recurso a Perec termina por arejar a forma distinguindo-a de uma dominante literária atual cada vez mais confortável de si mesma: a autoficção. Seria fácil para o autor italiano trabalhar os temas de As perfeições através dessa forma dominante que tem consagrado nomes como Edouard Louis, quase tão jovem quanto ele. Por isso, a escolha do modelo de As coisas gera curiosidade e instiga boas reflexões.


Nesse modelo, prevalece a descrição em detrimento da intriga narrativa; a enumeração de fatos vale mais do que a peripécia. Sobretudo, na montagem da arquitetura narrativa de As perfeições, vige o aparente distanciamento do relator em relação aos personagens. Digo relator porque, seguindo Perec, efetivamente há uma escolha pelo relato e não pela narrativa. Esse relator (e não narrador) de Latronico constitui um ângulo quase antropológico para acompanhar um movimento circular (sem saída?) nas vidas dos dois personagens protagonistas, Anna e Tom, que são tomados quase como exemplares da Geração Y. O livro cobre um recorte da vida adulta no fundo tediosa e socialmente irrelevante, integrada a um mundo cultural hiperpasteurizado, votada à espera dos personagens por contratos precários de trabalho como designers que os deem ascondições de esperar sem angústia pelo próximo momento de consumo. Trata-se de dois adultos imersos em um mundo que é puro consumo, do sexo à ajuda aos refugiados, passando pela comida e a arte. O vínculo do dinheiro bate como um surdo a cada movimento dos personagens.


A crítica é, como parece, óbvia. Não se exige grande esforço para diagnosticar que, nos países centrais o capitalismo da alta financeirização e a hiperconexão determinam trajetórias de vida tão chapadas quanto as telas de celular. Talvez por isso, os personagens sejam também tipos chapados, com os quais parece ser quase impossível um certo tipo de conexão empática. Através da forma do relato antropológico posta em marcha por Latronico, marcadamente distanciado, não conseguimos sequer odiar os dois incapazes que são os seus protagonistas, pois não nos é oferecida praticamente nenhuma chance de travar contato com a subjetividade deles. A não ser quando o relator distribui, estrategicamente, sutilmente, algumas perguntas ao longo das cenas.


Essas perguntas são índices de subjetividade que temperam o relato, problematizam o ideal distanciamento entre relator e personagem e emprestam mais ambiguidade a uma crítica que poderia ser apenas unilateral, como desejariam leitores mais apressados. Quando o relator pergunta, não sabemos se a pergunta esta na cabeça dele, na cabeça dos personagens ou... na nossa cabeça. São imperfeições as perguntas: é isso que interessa hoje na leitura do romance, em se comparando com o contemporâneo marasmo autoficcional. Muito mais importante e estimulante do que a "crítica mordaz de uma geração", reiterada para vender o romance mundo afora, gosto de pensar que há uma forma problemática latente em As perfeições. O que talvez tenha feito o romance ser finalista do prêmio Strega e vencedor do prêmio internacional Mondello e que talvez estimule leituras aqui no Brasil, a partir da excelente tradução de Bruna Paroni.


 
 
 

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