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Antologia poética 5: Tangente do cobre

  • Foto do escritor: Alexandre Pilati
    Alexandre Pilati
  • 1 de ago. de 2025
  • 9 min de leitura

Na quinta estação dessa viagem pelos meus livros de poesia, chegamos a Tangente do cobre, de 2021, publicado pela Editora Laranja Original. Certamente este é o meu livro mais meditado e mais bem acabado. É uma peça mais orgânica que as demais. Divide-se em três partes: "Conjuntura", "Você volta pra ela" e "Bate outra vez". Na primeira, seguem dominando os exercícios do que poderia ser denominado mais diretamente como "poesia política". Na segunda, estabelece-se uma galeria de perfis, especialmente femininos. Na terceira, o lirismo reflexivo e amoroso apresenta-se como forma dominante.


Para minha surpresa e alegria, o livro recebeu o Prêmio Candango de Literatura em 2022, na categoria autor de Brasília.


A seguir, vão alguns poemas da obra, de que gosto bastante.


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2021

(Tangente do cobre)

 

Instância

 

Dar à verdade seu peso.

Já é muito em dias de cão.

Dispor a realidade antes

das manhas da mistificação.

Nenhuma flor jamais nasceu

do delírio e dos grilhões.

A lucidez é o mais bonito.

Ela pesa.

A palavra que pensa

é a mais necessária.

É livre a lucidez

e imperiosa.

Ela pesa.

 

Organizar.

Dar a um e outro o denso

da História. A todos, esse denso.

Ordenar. Classificar. Sistematizar.

Propor e entender a hierarquia.

O grande é o maior.

O médio é pequeno,

mas não em relação ao pequeno.

E entre todos: o menos é o pequeno-

burguês; seja grande, médio ou pequeno.

 

Cultivar. E cultivar-se.

Um céu negro às três da tarde.

Isso é um pedido por tudo

que se inventa

com sensibilidade, com inteligência.

É a arte aquilo que dobra a esquina;

cavalos, há tempo, se dobram à arte.

 

Estar junto. Os dedos,

os braços, as pernas os ventres

em movimento fazem um outro corpo.

Que não é deus. Que não admite deus

nenhum e que encarna o dever.

Outra coisa que vive estará, simplesmente.

 

Escolher as ferramentas.

Há tantas. Há úteis. Inúteis.

Quem quer gritar não usará alicates.

Quem quer silêncio que abra mão

de máquinas que produzem vento.

Usar os apetrechos justos

para mover o carro da miséria.

Empurrá-lo país acima.

Saber.

Saber o ponto que escolheria

Arquimedes. Saber esse ponto.

Saber que ele é de verdade

e fica no chão à espera

de nosso coração e de seus dispositivos.

 

Não dizer não aos filósofos.

Interpretar: como um passo para

transfigurar.

A transfiguração: como forma

de interpretar. Narrar. Por em palavras,

pelas palavras, através das palavras.

Uma forma de transformar.

 

Rasgar a solidariedade

e saber chutar. Na selva

vige a selva. E que argumento

há melhor que o punho

em olhos fascistas?

Rasgar a solidariedade,

que é um ato de liberdade.

É preciso.

 

É preciso transformar-se.

Transformar-te. Transformá-lo.

Não é uma tese. É uma ordem.

Uma casa onde se casam

causas e acasos.

Perder o medo do povo.

E impor ao pusilânime

temor do povo.

 

Não ter bandeiras.

Mas ter orgulho.

E ter orgulho das bandeiras.

Ter orgulho desta garganta

que quer ferir e quer fundar

porque grávida de terra,

de ferro e de raiva.

Luz do solo,

paixão do concreto,

ar presente e azul,

desacerto.

 

Ou poesia?

 

 

O sonho de uma coisa

                              

                               para Simone Brantes

 

eu tenho

um irmão chinês.

 

sob as máscaras,

nossas bocas

se parecem

demasiadamente.

 

a micro-história

dos dentes

é semelhante:

um se partiu

na juventude;

outro se extraiu

com extrema dificuldade,

os molares doem

quando sentimos

medo ou rimos alto.

 

desta distância

disparatada,

construída

sem nossa ajuda,

podemos ainda

reconhecer

um ao outro.

 

ele diz que sonhou

comigo, eu acho

que o pus

em algum

dos meus

recentes pesadelos.

 

nesses sonhos,

quase delírios,

pegávamos

antigas notas

muito puídas

de dólares

ou outro dinheiro

sem valor

desta Terra

ou de outra;

depois, tremendo,

lavávamos

as mãos

com um sortilégio pegajoso

que cheirava a sabão.

 

nossas mãos,

então, se grudavam

e não era possível

mais separarmo-nos

sob nenhum

decreto ou vontade.

 

eu tenho

um irmão chinês.

 

e ele me ajuda

a aprender e ensinar

aquele cumprimento solene

em que as espinhas se dobram

a qualquer coisa

e a qualquer um:

até à mais ínfima

criatura, que não

fala, mas empunha

uma tocha

que se crava

na fenda aberta

de um globo

rompido.

 

agora

neste dia novo

já que estamos

tão íntimos

eu e meu irmão chinês

sairemos pela tarde

austera e crua

e esperaremos

que não seja tarde demais

para as flores, a lágrima,

o desenho à mão livre,

o amanhecer.

 

 

Fantasia

 

Num tempo como este,

é talvez inesperado

que os bois sambem.

 

Mas, não custa reiterar,

os bois sabem sambar,

sabem que há urgência em balançar.

 

Pouco lhes importa o ano, o clima, a conjuntura.

 

Podem fazê-lo, bovinamente,

a qualquer hora.

Inclusive num tempo como este,

que passa de improviso

sobre nossas cabeças.

 

E não precisam de avenida:

os bois fazem de qualquer pasto

o seu sambódromo.

 

Quando sambam, os bois reiteram

o peso que carregam; peso que é

o ser boi em meio a tantas coisas sutis.

 

Derivam, às vezes, do samba

ao frevo e ao axé, mas seguem,

com disciplina, amassando o capim,

que é seu lugar, seu combustível,

sob os pés, ao redor da língua

e, é claro, entre os dentes muito lerdos.

 

Como se fosse o seu tempo

o mesmo das lesmas, os bois cantam

marchinhas e sambas-canção

em seu carnaval feito de câmera lenta.

 

Nos bois, a lentidão é uma lei

que não se revoga por qualquer folia.

 

E lá vão os bois em seu bloco,

como se dentro de um aquário

em que a gravidade assumiu vida própria.

E lá vão os bois em seu samba

com seus olhos tão tristes,

que nenhuma alegria transitória

é capaz de conspurcar.

 

Esta, de fato, a lição do amplo gado

que no entardecer feliz

de uma terça-feira gorda,

desliza quase a fórceps

na paisagem:

os bois, ao sambarem,

não deixam jamais de ser bois.

 

Ruminam, mugem e pastam.

Esta é, dizem os cientistas,

a parte melhor

da sua lúcida e silenciosa

fantasia.

 

 

Conto de fadas

 

karl marx ainda não havia escrito O Capital

aliás estava mesmo muito longe disso

dizem que foi lá no tempo dos bichos que falam

 

a elegante jenny deulhe

sem ter nem pra quê

o apelido de “meu javali selvagem”

 

talvez por isso

(que essas coisas só se dão nos contos de fadas)

ele tenha escrito

3 (três) cadernos de poemas

oferecidos a ela no Natal frio de 1836

 

ao entregar-lhe os versos sentiu de perto

o que seria o cheiro breve da palavra arrepio

e o Natal virou algo quente sob o miocárdio

 

jenny – uma labareda de cabelos castanhos –

tinha em suas mãos o “livro de poemas” e o “livro do amor”

que retribuíam à altura o apelido mais adequado

que aquele trovão barbudo e moreno poderia receber

 

e eis que a rainha do baile

excepcionalmente simples e bela

alimentou com delírio

o javali selvagem

que rasgou a garganta do mundo

ao semear dragões

por toda a terra

 

 

Você volta pra ela

 

é bom sair por aí

sabendo que ela ainda toma seu gim

com limão ou qualquer outra coisa

que seque as lágrimas e tenha a força

de queimar todos todos mesmo todos

os arrependimentos

 

é bom saber

sol à testa numa estrada por aí

que ela canta com umas asas novas

que ela tem a garra e a graça de uma flor

de uma fonte que nunca desiste de viver

e tomar o seu gim como fazem

todas as garotas atravessadas pelo dom

 

é bom saber

da poesia que se dissipa na prosa

de qualquer canela a perder-se no mundo

atrás apenas de um amor de um gim

de um colo de um espaço

de uma fresta que manche a monotonia

entre agudos de corvo e graves de canário

 

é bom saber que há gente

em forma de vulcão

que resgata da tragédia

a súmula santa

da vida que de nada necessita

 

a não ser sair por aí

sabendo que continua

nos tirando da lama

do breu

tomando seu gim

em nome da beleza

 

 

Rainha

 

ramona bate na cara

rabisca na cara

à navalha

porque não sabe

escrever de outro jeito

 

ramona te quebra

o nariz te leva a carteira

te rasga o rabo as vestes

te mata até a alma

e sabe que foi golpe

 

ramona ri

ramona tem pinto

usa turbante

pode ficar de pau duro

lhe falta dente

lhe alegraram as flores

o sangue ela limpa

 

ramona é humana

é a rainha da república

 

o país e a nossa miséria

estão nas rugas

tristes do sorriso

gigante de ramona

 

“no dia que sonhei

quis mudar meu nome

pra Vera mas desisti:

ramona é mais

a minha cara

cara de rainha”

 

 

O ar habitual de Tia Olga

 

Da infância ainda guarda

alguns átomos no olhar

e a lembrança do último

segundo antes de o corpo

sentar-se no trono tirano do tempo:

 

para perpetuar nos nervos bambos

a chama pânica do gelo e do sal.

 

Na soleira galvânica da sombra

– da solidão –

o riso preso é uma praça

onde os seres que já passaram

debatem mudos

a pressa, o sonho, a perda,

a eternidade e a ferrugem.

 

Sobre tudo isso assombra-nos

a sua aparência imperturbável.

 

 

 Caracol

 

livros que li

 

esta casca

de peles e palavras

 

esta casa

de danças e dilema

que me fiz

 

patuá de afetos

que me protege

por dentro de mim

 

 

Poema

 

Você está ali

em pleno campo de batalha

disposto a tudo.

 

Até a entrar pelo cano.

Mas é claro

que isso é muito

fora das probabilidades.

 

Confere o bolso traseiro:

a capa de toureiro está lá.

 

Vê que o grito está lá,

preparado goela abaixo,

pronto para ferver o estômago,

passar batido, estourado,

pelo coração e romper a garganta.

 

Tudo pronto: você se enxerga

no meio da arena,

amando a própria coragem...

 

E dias depois, no hospital,

ainda acha que foi a brisa

o que lhe inebriou os sentidos.

 

Foi a brisa ou o grito inchado da geral?

 

O que não lhe fez perceber

de que lado veio

aquele cavalo a galope

de uma tonelada

que lhe pisou por cima

à mera ameaça que você fez

de erguer o muque

e tentar dizer

“eu te amo”?

 

Tudo isso quando era tarde,

demasiadamente tarde.

 

 

Bate outra vez

 

ei! pombos de aço

de pedra que habitam

elétricos dentro do meu peito

 

aquietem-se acalmem-se

esta gaiola de carne e pejo

prede-os e, todavia, os ama

 

juntos vamos ao fim da rua ou do horizonte:

– é certo, é justo; eu quero e preciso –

sem estes arrulhos sou uma coisa sem revolta

 

mas não vistam tantas patas de cavalo

não cisquem com chumbo

não sapateiem assim com pregos

as cãs do meu coração

 

prestem atenção neste corpo

de pinho que vem agora ao meu socorro

sintam este abraço de calma

 

em que me segura o violão

com que disfarço o desespero

em que me abrigo do tempo

 

não pesem tanto.

não bulham: “é pau, é pedra,

é o fim do caminho”

 

é apenas outra espessa promessa

de vida leve pra quem sente

saudade de ser passarinho

 

não pesem tanto.

não bulham: é aço, é perda

e o fim do caminho?

 

 

 

Selo

 

espalho algumas palavras

sobre teu corpo

para tentar legar

aos que virão

mil anos depois de nós

a beleza tua

que orienta

a independência deste instante

 

mas desesperam frágeis

as palavras porque

não chegam a ti

ne te recompõem

não te ultrapassam

não mínimas

diante do que preenches

 

e nessa insuficiência

tornam-se as palavras

mais humanas e reais

afeitas ao tempo

assimiladas à possibilidade

que emprenha

o que tem morte

e sabe de finais

 

pelo que não digo

pelo que me falta

pelo que desejo

abraço-te outra vez

 

e por um inusitado acontecer

tua beleza segue

reverberando para além

de cada conceito e de cada som

 

penetra sólida e calada

os desvãos da vida

feito o riso rosa do sol

que colore nossa esperança

sob os milímetros doces da luz

 

tua beleza entretanto

deste longe sonho

sempre volta

 

e grava nas retinas tristes

do tempo o selo

que nos deixa mais vivos

através da teia

que a ti me ata

 

sob a forma do amor

que só se diz de todo

com as palavras

que a humanidade livre

ainda inventará

 

 

Batatas da vitória

 

Apenas

em último caso

escreva um poema.

 

O silêncio

é uma pedra

sábia

e às vezes

pesada demais

para as pretensões

da algibeira.

 

Apenas

quando não

haja outra

alternativa

no caminho

entre o teto

e o chão.

 

quando soar

o alarma

assopre

o velho chifre.

 

Diante

de quase

toda

emergência

faça

a urgência

esperar:

feche o bico

e se pique.

 

 

(FIM de 2021)

 
 
 

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