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Antologia poética 4: Autofonia

  • Foto do escritor: Alexandre Pilati
    Alexandre Pilati
  • 1 de jul. de 2025
  • 7 min de leitura

Atualizado: 29 de jul. de 2025


Em 2018 lancei o meu quarto livro de poemas, intitulado Autofonia. Os poemas ali reunidos são reflexo, sobretudo, do momento de crise política vivido no Brasil a partir de 2013, que culminou com o impeachment da presidente Dilma e teve como desdobramentos a emergência descarada da extrema direita no país. Junto a isso, há também uma nota pessoal relativa ao transcorrer do tempo, a certeza de que a juventude já tinha passado e que era preciso escutar melhor a vida. Por isso o título do livro é autofonia, uma expressão que remete à patologia de escutar os barulhos do próprio corpo. Assim, eu tentava comentar aquela velha máxima de que a arte é uma condensação da experiência coletiva, a qual também é possível ouvir pulsando dentro da fala íntima.



Aí vão os poemas que selecionei dessa obra e que devem compor a antologia pessoal que estou preparando para lançar em 2026.


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Lúcida

 

esta tarde de cinzas, tarde

tardia, bem que podia logo acabar; tarde

de pura mercadoria, de espera líquida

pelos demônios, bem que podia acabar...

e não haveria nem festa nem dor:

paulatinamente as cores seriam de outros.

bem que podia esta tarde espessa levar-nos à noite logo,

à noite do logos, ao puro silencia, à intensidade

da mudança fibrosa que nos espera depois deste lago

de pez que é a tarde: a tarde seca, sem água, deserta.

a tarde da espera de pura mercadoria. regaço de aço.

a tarde de pez impregnada de nada: sem furos, sem jeito: a tarde

bem que podia tocar uma campainha, poderia a noite tomá-la

de assalto e nos levar pra dentro da lua da noite, tamanha noite...

tão noite e sem alarde que nela reside a luz humana:

liberta, feita do mais puro dia, da mais agressiva lucidez,

nos antípodas desta tarde tardia, feita

de um ar livre do peso deste capitalismo tardio.

não estou triste, querida, esta calma lúcida

é uma forma de euforia: embora os músculos do riso

se achem extenuados ou, tão longemente do meu rosto,

desaprenderam os caminhos de dizer o que respira em mim.

há partes de nós em que a alegria é um grito de desespero:

solto, sem sílabas, mas vivo no horizonte da tarde que se parte,

como um osso que se quebra e assim atesta que estamos

os dois (e tantos outros milhões) dentro da mesma espécie

e a um passo de outra tarde em que nossos gestos

espalhem, pelo tempo recuperado, as sombras

do que somos, do que são de verdade nossos atos.

 

 

Luz do chão

 

ao poema que pede

tuas pernas só pra quebrar

                e tuas inefáveis penas

                idiossincráticas

 

dá a indecorosa intercorrência

da escassez mundial

                de cores

 

dá o que falta ao poema

                consistência de matéria de coisa chã

                ou de vento ar: que é a coisa mais concreta e mais azul

 

lembra-te, poeta:

contra as certezas aéreas do poema se ergue a espinha

                de sísifo

                da diarista

                que derrota dia após dias pela porta

                               dos fundos

 

ao poema extremo e mínimo

repórter do desvão bolorento do privado

coração elíptico dos modernos comendadores

                dá então aqueles

                roteiros roteiros roteiros

                e a bulha infernal da estação

                às fatigadas horas de sol

e a afásica carne de engrenagens

de ferruginosa luz do capital

 

dá a opressão sempre literal

sempre feita

                de tétano e cortante lata

                contra o poema empalhado

 

ouve, então, (o poema ouve, não duvides!) alguém,

ouve a meio da rua ou dentro do corpo:

                “vai lá, mata ele, mata bem, mata todo, lincha bem.”

 

 

 

Noturno de Maria

 

onde a alma tua canta

há carinho e abrigo teu

nalgum canto da treva de mim;

 

ali onde te rejeito

onde meu jeito de ser

toca tuas pétalas;

 

ali onde tudo se abre em

onde o oco

o ocaso nos oprime

em música e dor;

 

ali onde a noite atua

é tua minha vida morta

é minha tua perdida

voz retomada;

 

bem ali, onde tudo turva-se,

noturnos mares onde és,

eu sou silencia e te falo

feito inquebrantável menino:

feito cálice de amor.

 

 

Golpe de dados

 

A noite é leve

a noite é púbere

a noite (e seu tempo)

breve de ar

flutua

                até

que o destino (ou o diabo)

lança de longe peras, caroços de pêssego,

nódulos de dor e perigo e pedras no seu peito

macio de noite, de feminil areia, de princesa negra.

 

                Rasga-nos, então, suja e incendiária

                pelas costas (mas necessária, material)

                outra face da vida, em lâmina velha,

                cega e branca,

                enquanto buscávamos,

                na lua, nas estrelas, na luz, no breu,

                cheirar os cabelos da felicidade.

 

 

Fotografia de família

 

Se quisermos, é descer à escuridão.

 

À mesa, diante de retratos,

algo denso, imenso peso,

a contundir a carne fantasma da esperança.

 

Vir dali pra cá do tempo,

boeing elefante e asteriscos de fogo,

o movimento entre o vime: violência.

Estourar a moldura. Evaporar o amor.

 

Apavoro.

 

Para onde fomos, retrato, após?

E que é destes mortos de tinta, que gravitam bêbados

o sol turvo da inconsciência?

 

 

Avelhantado

 

                                                               Sou um homem arrasado.

                                                               Doença? Não. Gozo de perfeita saúde.

                                                               Graciliano Ramos

 

a cansada vista

cavuca custosa o ar

atrás da antiga fúria

que quis

que rompeu

inúmeros sexos e que lhe

pré-existia de séculos

 

                               sombras voam parcas

                               com asas pesadas de piche

                               e a antegozada noite

                               por demora e fracasso perdeu o trem

                               os músculos desfibrados sentem

                               dores inusitadas e crostas crescem

                               em câmara lenta – “sou mesmo este lobisomem?”

 

tudo está mais difícil

está mais morto

mais vivo

mais sem amor

mais pleno de sentido

 

 

Meu velho

 

quente embora o ar

                arrepio

 

ao reconhecer

na sombra sentada na modorna

                partes de mim

                que são tão eu quanto ela

 

o tempo vem-me, abraça-me música e se abre

                em fim

 

pesos de concreto sorvo

em alguma esquisita dor

o ar que me sustenta zumbe

e a sombra suspira um gesto

 

- que fiz, que fizemos,

                “que fazer?” –

 

é a sombra sem palavras dizendo-me

                em surdo bulício algo

                ou é já meu corpo

                com barulhos de tempo?

 

quem serei

quando o presente se for

e o futuro for apenas um jeito paterno

                a rastejar

                entre meus desejos

                meus dentes

                meus sonhos

                meus ligamentos

                entre os balanços

                da minha voz?

 

 

No meio do caminho

 

That monster, custom, who all sense doth eat

Hamlet

 

minha cidade, encaro outra vez em delírio,

louco e velho príncipe, tua carranca: para ti arrasto

estes quarenta anos e tento encantar-te debalde.

 

balbucio em tuas tesourinhas um protesto errado

ou o nome mãe (minha mãe bonita morreu triste

entre teus corredores de engolir estrelas e passarinhos).

 

minha cidade, envelheci e vejo tuas curvas rijas

que já não são de utopia, que são agora as curvas

de um boxer que duro canta uma ária de Turandot.

 

eu sangro enquanto choras asfalto, cal e carros

e te desejo monumental, tortamente Diadorim –

macho na chuva, fêmea nas manhãs: ninguém durma!

 

estou velho no sertão, na maloca, estou velho

na rosácea estéril da pequena burguesia, num circo

cheio de pústulas e dívidas, de nódulos e de relatórios.

 

pouca luz vem, minha cidade, de teus entardeceres,

e apalpo-me às dezenove horas de Brasília: reconheço

rugas; não tenho mais a mesma idade de David Beckham.

te aceito como um pederasta, te aceito como um comunista,

te aceito como Charles Chaplin, te aceito como uma super

bactéria, como um surto, um golpe de cotovelo: te aceito.

 

nas feiras de falsidades, vendi as quinquilharias

de meus sonhos, entreguei os vinténs dos meus sorrisos

e o dinheiro comeu aquele cavalo que me levava de ti através.

 

encaixei-me em teus eixos, caixeiro incurioso que sou;

de lasso papel que sou, aceito o verão que oprime.

anseio a seca que sempre derroga as águas do Paranoá.

 

mas ainda há algumas garças e trabalhos de Oscar,

ainda há a paixão de Lúcio no crucifixo, mas ainda há

um chope com Chico e Nicola à espera no Beirute.

 

então, não te mando embora, pois sei mais de mim,

sei amar mais, sei beijar melhor, sei melhor

reconhecer os companheiros que ao meu lado brigam.

 

entre hábitos, fantasmas e demônios, escrevo ainda

nesta vereda cerrada da vida, escrevo-te ainda,

minha cidade, para dar veias de verdade ao meu descontrole.

 

e te juro: não deixarei o monstro me devorar os sentidos.

 

 

Dicotomia

 

O corpo:

cápsula de angústia

em que o tempo ganha

forma.

 

A alma:

válvula de escape

em que o tempo foge

da forma.

 

E eu lá no meio, sem dialética, sem saber que diga ou faça!

 

Joelhos e sonhos no milho da dicotomia.

Corpo de castigo, dividido; alma fechada, a céu aberto.

 

 

Garça

 

forma-linha

                isenta do caos

eis a garça entre desgraças

                alva entre o verde

                das garrafas de guaraná

                no raso do Lago

                Paranoá

 

estranhada dos eco-problemas

como um poema pós-tuópico

ela finca sua magra e bela pobreza

                sua magra e bela bandeira

                branca de puro mastro

 

infensa ao futuro, ao presente, ao passado

mas não talvez à História

sua frágil altivez é...

 

...é o que deu pra arranjar

Para corrigir um pouco o curso

                                               e o ranger

                da destruição

                a que chamamos civilização

 

 

Desejo de setembro

 

que assim fosse

outra vez

meu coração:

 

a mera ameaça

de chuva

                basta

para a grama secretar

sua verde obsessão

 

 

 

Rosa popular

 

Vida desfetichizada, rubra,

                notas de uma sonata ao léu,

                em meio à bela hecatombe

                               de mercadoria, erros e anjos,

                               recalques, razões e úlceras,

                que os homens de hoje,

                entre delírio e certeza,

                chamam de nosso futuro!

 

Flor querida, íntima e pretérita,

                és o sorriso e os dedos mínimos

                que me tocavam (criança de medo!)

                               e que incendeiam agora, no arrepio,

                               o corpo invisível de fagulhas do presente:

                o ar em crise que vai

                longe e chega e grava

devagar um mundo convulso em mim.

 
 
 

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