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Antologia poética 3: e outros nem tanto assim

  • Foto do escritor: Alexandre Pilati
    Alexandre Pilati
  • 30 de mai. de 2025
  • 4 min de leitura

Aí vai a terceira leva de poemas que vão integrar a minha antologia poética pessoal. Aqui reúno os textos de e outros nem tanto assim, o meu terceiro livro, publicado em 2015 pela Editora 7letras. Nos poemas desse livro, muito do que era ansiedade de dizer nos dois primeiros se tornou atenção mais tranquila à forma e ao desenvolvimento de uma perspectiva sobre a vida mais calcada na tradição. Do conjunto, salvei alguns poemas de que ainda gosto e outros nem tanto assim...


2015

(e outros nem tanto assim)

 

 

À guisa d’exílio

 

Preciso desesperadamente

aproveitar essa nesga de noite fria

com tanta gente na rua, na rua sem fim...

e também os serafins estranhos de cidade daqui

para fazer poesia, um livro inteiro talvez,

que lá em brasília não há quem consiga

fazer um verso que preste.

 

 

Desjejum de verão

 

Este é o céu

            para que olhamos

no verão:

a luz espinafra-se.

 

Imaginem tudo que há

            de quente e azul:

            sal, odor do solar

            bloqueador.

 

Mas algo arisca

            e nossas mãos

            estão sujas e nossos corações

            derivam pelo sem fim

destino de cão vira lata perdido.

 

Procuramos o quê? Quem?

            Pela cidade, pelas ruas,

            no chão do verão?

            Vento natura dinheiro...

 

 

Esfinge

 

sobre o pó que sobra de mim,

não será inútil teu cavalgar

imóvel, imenso, labirinto?

 

este rosto de lua e púrpura

que alça sobre meu palor

a sintaxe da neblina?

 

à felina espinha tentacular,

arco-íris de uma só cor,

desperto decifro desespero?

 

 

Meu lírico

 

não sou tom

nem sou Drummond

josé ou neymar júnior

niemeyer ninguém

 

no desejo de me manter

perco a linha, enleio-

me leio literatices

sou literal

 

dou de bandeira:

pouca fala nenhum beijo

 

contenta-me a confusão

aspiro contradição

e exalo coisas sem

melodia sem problemas

 

segredos mortos: veredas

 

quase quarenta anos

e as palavras

intimadas me fogem

nada intimamente

com azia e azinhavre

 

com aquele velho amigo me interrogo:

em werther me verterei?

 

 

 

Dor de cotovelo

 

sorrindo as estrelas

estateladas de um brilho murcho

ela me disse que estava bem

que estava tudo bem

que as coisas são assim

findam e afundam

que a vida segue

banhada em uma espuma

ácida que faz cicatrizes e arco-íris

 

especialmente na face

 

expondo o espanto de não ser mais querida

ela me disse que agora tinha

na alma a dor

de uma criada mau criada

de um engraxate desterrado

que se ajoelha aos pés do amor

 

eu disse a ela

que tudo isso era muito normal

apesar de não sair no jornal

 

a raiva e a doçura

entre outros artifícios

estouraram de repente

entre nossos olhos

e pensei ouvir ao fundo

acordes de doido blues

 

ou a voz de alguém vindo das sombras

arranhando duas bocas apaixonadas

 

e nosso primeiro beijo

foi dado a cotoveladas

 

 

Má educação

 

o verão continua

 

eu vejo o céu

as nuvens o oco em brasa do sol distante

 

            lemas e vozes populares esvaem-se

            ou nem se ouvem

 

e tudo desce

 

torno-me uma ilusão em tua mente

que já não me vê

 

e me perco no desconcerto do entrevero

de duas pernas femininas sob o vestido

 

onde estiveste, por esses tantos anos?

onde estou agora, nesse trivial sofrer que não me ensinaste?

 

a vida pede o próximo passo

ávida por seguir

sonhas longe de mim

 

o vento sopra e eu também sou

o verão

 

é a verdade indelével

 

o que faço é transitório

 

o verão educa:

“sofre iluminado

aniquilado pelo anil”

 

 

Minha língua

 

Era moldura de ombros selvagens

ceticismo fabuloso

desejo, desespero.

 

Era vasculhar a intenção pensa,

escombros, terra insabida e vascular,

arestas do abandono.

 

Era este ir que é noite,

treva tremida, miopia,

raiva e ruir do teu corpo em mim:

ou ameaça de vento.

 

 

Saudade

 

pingo d’água

não se dá a nó

 

tempo não vem de volta

não dá pé

 

e tua ausência

música saudade piano

 

eiva imenso milharal

de falta

pés e pés de letras X

em léguas

 

e tua ausência

fica aqui crescendo

daninha

 

arminha dívida

avalanche

juros sobre juros

sem ti sem ti sem ti

 

e cada lágrima

(como dizê-lo

em outra língua?)

um arde bom

descorçoado

 

gole quente

de cerveja fria

 

 

O ser e o tempo

 

Deito meu ouvido

no umbigo da palavra noite

e ouço a vida ao lado

como um toldo

a outro tom ater-se

outonar

 

 

Um exílio na canção

 

Minha terra não tem nada

que valha uma toada.

Minha terra tem mais não

Nem cá, nem lá: só não.

 

Mas resta inda algo pousado no tempo

num entrecho da vida de irmãos perdidos.

 

É aquele sabiá desesperado, enclausurado na canção.

 

 

Irreversível fada

 

fio dental

na boca não

que há pouco

dente

mas batom

na bunda sim

adulta palavra

 

infanta ou fada

anja violada

no baby care

carícias

dão cárie

ao corpo

 

boneca nina

no colo

a chupeta

na mão às vezes

erra de boca

 

e teu secreto

sorriso rasga

um pênis

 

ninguém

te namora

com rosas

 

outro poema?

 

 

(FIM DE 2015)

 
 
 

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