Antologia poética 2: 2007
- Alexandre Pilati

- 1 de mai. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 5 de mai. de 2025
Seguindo o trabalho de reunião dos poemas que vão compor a minha antologia poética pessoal, apresento a seguir alguns textos extraídos do meu segundo livro, prafóra (7Letras, 2007). Nele procurei me desvencilhar das temáticas relacionadas a Brasília, que marcaram o sqs 120m2 com dce. Há muita coisa no livro que não serve como poesia que mereça ser lembrada, mas ainda hoje gosto de alguns poemas. Sinto hoje que estava afinando uma certa dicção para falar sobre a vida social e integrá-la consequentemente aos problemas íntimos. Nem sempre se conseguiu um boa afinação, mas, em alguns casos, o resultado me parece ainda hoje interessante. Um poeta se faz pela ambição de se tornar poeta. É essa ambição que faz o mero escritor de versos buscar algo intenso, capaz de efetivamente desacomodar o leitor. Mas também é essa ambição que faz o aspirante a poeta carregar em artifícios. Aos poucos vai se abandonando essa ambição, e o balanço entre o essencial e o assessório vai ficando cada vez mais tranquilo. Tal tranquilidade ainda não existe nos meus dois primeiros livros.
Busquei alterar em relação ao livro de 2004, sobretudo o tom dos versos. Aqui a ironia é substituída por um incômodo, um certo desajeito que seria depois muitas vezes aproveitado (e bem melhor) em outros poemas e livros. No prafóra ainda me reconheço como um poeta ansioso por dizer coisas, o que muitas vezes prejudica a tarefa de constituir um estilo consequente de transfiguração lírica do mundo. Alguma coisa, entretanto, somado o bom e o ruim, vale a lembrança.

Vejam o que acham. A antologia deve sair em formato de livro em 2026, quando completo 50 anos. O título provisório era "Fronteira móvel". Mas penso que vou modificá-lo.
***
pequena
em minha letra confusa
(restos de um coração difuso)
tateio teu nome sem tocá-lo
com o ritmo da cidade
que esnobe nos devora
em distância e ruidosa mudez
com as frias giletes
de privilégio
do papel
tento rasgar
em teu peito
a doçura de uma sereia
que vive alheia ao caos
de meus olhos talhados
de pão, rosas e povo
balada
se assusta não, menina
nasci durante a guerra fria
(toda poesia já estava escrita em 76)
se assusta não, menina
violenta é a tevê
se assusta não, menina
vivo assim suando frio
(pois me resta apenas colecionar brindes, panfletos e promoções)
se assusta não, menina
eu não atiro, só babo
por uma balada que exploda o mundo
se assusta não, menina
que eu junto os restos dele e faço retrato colorido
pra pôr na minha estante ao lado do seu sorriso
secos e molhados
definitivamente, não digamos bom dia.
não peçamos desculpas e esqueçamos o feliz aniversário.
não desejemos meus pêsames, nem xinguemos o vizinho.
não solicitemos licença, nem matemos no elevador.
definitivamente, não tiremos bons modos do bolso.
não agridamos mais o juiz, nem a mão do padre.
controlemos a insultaria, a boa educação, definitivamente
não digamos meuamor, filhadaputa.
definitivamente, mais que palavra, tudo isso é saliva.
e a nossa há muito já secou com as coisas mais desimportantes.
agrobusiness
olha só:
este mal traçado tratado
de sociozoologia
indica
(contrariando todas as profecias)
que entre as quietas bolas
que o boi perdeu
pelo bem da manada
– no puro vácuo da dor –
no silêncio do lunar deserto verde da soja –
bate um país ruminante
ao som do trenzim caipira
do tamanho de um elefante
pra que serve?
meu coração tu embrulha
pra levar no coletivo
pode ser numa quentinha
num saquinho de quitanda
com laço de fita e flores e vaselina
lá em casa, tu pega este coração
lambuzado coração
cheio de dengo e canção
poesia que ninguém leu
e soca bem de com força
no sacrossanto orifício de Orfeu
se eu morasse na finlândia
colheria, no caminho calçado (há seis séculos)
um cravo de tons e semitons de azul
se eu morasse na finlândia
usaria uma camisa rosa (de botões amarelos),
uma calça esvoaçante e sandálias, principalmente sandálias
se eu morasse na finlândia
faria poemas, leria filosofia, iria ao teatro
e tomaria vinho em um bar com mesinhas de madeira brasileira
se eu morasse na finlândia
faria palavras cruzadas, trataria da próstata com fleuma
sentiria uma saudade danada do calor e me mataria com treze anos
se eu morasse na finlândia
escreveria um romance de ficção científica que falaria
de uma terra em que as mulheres teriam uma grande bundamulata
se eu morasse na finlândia
teria uma loja de heráldica e venderia antiguidades
a preço de fla X flu no maracanã
se eu morasse na finlândia
minha cabeça estaria no lugar; minha alma, mais pura;
meus cabelos, mais loiros; minha tristeza, mais profunda; meu salário, maior
se eu morasse na finlândia
meus poemas não teriam começo
nem meio, nem fim
se eu morasse na finlândia
criaria um país cheio de espelhos e folhas verdes
nem que fosse no gélido rio que correria dentro de mim
luminária
esta lua de inverno
cárie na boca do setão
na escuridão torta e estatelada
é o nosso pobre sol de maiakóvski
rodela de prata
vintém terrorista
detergente
proletária
solta lá no céu é só uma gravura na sala de estar periféria
um desagravo – desagregado SATÉLITE
ofuscada e fraca parece que pisca
mas luminará para toda a ETERNIDADE
que ela brilhe mais que a fome, que a seca e que a morte
!que ela seja o lema que me leva!
vá prafÓra, PRO ESGOTO!
o oco negro que me chama
do shamisem de chamas de Times Square!
FIM DE 2007




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