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Dois poemas com Kafka

  • Foto do escritor: Alexandre Pilati
    Alexandre Pilati
  • 27 de jul.
  • 1 min de leitura



E-mail sem assunto ao Armando Freitas Filho

 

eu vivi tanto tempo

com seus textos

diante dos olhos

e debaixo dos braços

que considero irreal

o e-mail em que você diz:

 

"obrigado pelo livro

bom e necessário"

 

custo a crer

sorrio

não quero dormir

nem nunca morrer

 

(você um passarinho

saltitando curioso

de surpresa na janela

que separa meu poema

da rua cheia de vida)

 

pare por aí: não leia

não vale o tempo

a pena

a paz

livros são testamentos

as praças têm luz de crianças

 

e a meu ver

a situação é esdrúxula

e muito bonita

suficiente

 

é como se Felice Bauer

telefonasse para K.

e dissesse: "afinal, então,

qual é a sua, orelhudo?"

 

ato contínuo

passo as mãos

nas laterais da cabeça

e constato pela enésima vez

a compleição mais que modesta

de minhas orelhas domesticadas


 

(Sob linóleo vermelho, Urutau, 2022)

 

-----------------------------

 

Lâmina-só

 

- Um poema?

- Feito a fé de Kafka...

- A fé de Kafka?

- Sim. “uma guilhotina, tão pesada, tão leve.”

- ...

- E pronto para fazer desabar num átimo os mais sólidos pontos de vista.


 
 
 

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